terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O maníaco do ônibus

- Ih, lá vem ele de novo. Finge que tá dormindo. Rápido.

O aviso da amiga veio do banco da frente. Antes que a destinatária da mensagem pudesse retrucar com um “Ahn?” de desentendida, o maníaco do ônibus se acomodou ao seu lado, com um sonoro “com licença”.

O maníaco, assim como um serial killer, seguia um perfil na hora de escolher suas vítimas. Ok, ele não era assim tão criterioso: bastava que fossem jovens mulheres. A cor dos olhos ou do cabelo tanto fazia. Se fossem comprometidas ou desimpedidas, importava menos ainda. Ele apenas queria belas companhias durante o trajeto de 36 quilômetros que percorria todas as sextas-feiras.

As insane as Mr. Bean
As mais precavidas, ao saber do maníaco do ônibus, já se apressavam a escolhiam um assento com outra companhia que não a daquele lunático. Pena que a amiga não teve tempo de entender o recado de outrem. Na verdade, sua miopia não permitiu que reconhecesse o maníaco do ônibus de imediato: ele havia feito a barba.

A experiência de viajar ao lado do maníaco do ônibus, conforme suas vítimas, é a mais desagradável possível. “Ele ficou o caminho todo com o braço entre os bancos, roçando na minha perna”, disse uma das moças. A outra, indignada, relatou que o maníaco usou a tática que ela costuma usar – fingir estar dormindo – só para que ela o acordasse, pois estava no assento da janela e precisava descer do ônibus.

O ódio mortal que as jovens sentiam pelo maníaco do ônibus se traduzia, em primeiro lugar, por sua aparência desleixada e seu aspecto asqueroso. Se fosse um jovem bonitão, garanto que ninguém se importaria e até faria questão de compartilhar o banco do ônibus (de dois lugares) sem fazer cara feia.

O fato é que o maníaco do ônibus também não é benquisto porque se tornou uma figura indesejada a partir de suas ações. É visto como a tradicional “mala sem alça e sem rodinha”. E quando ele cisma com uma vítima, não há raios que o façam desistir.

Certa feita, acordou uma moça que estava dormindo (de fato) – e ocupando o banco do corredor – só para pegar o assento da janela, ao lado da rapariga. “Senhor, tem outros lugares disponíveis”, disse uma passageira mais velha, tentando ajudar. “Calma, ela já vai acordar”, disse, bravo, praticamente sacudindo a vítima, que despertou com um “Ahn? O que foi?” seguida do susto de ter como companhia de viagem o maníaco do ônibus.

Ninguém sabe, ao certo, por que diabos o maníaco do ônibus se tornou, de fato, o maníaco do ônibus. Dizem as más línguas que, se ninguém der um basta no homem, farão um abaixo-assinado para que ele seja indicado a persona non grata de seu município por atormentar suas conterrâneas durante a viagem de ônibus. Cogita-se até sua expulsão da cidade, tamanho o ódio a ele direcionado.

Situação deveras preocupante, eu sei. Se estivéssemos em outro regime, certamente o maníaco já teria sido condenado a uma penalidade do tipo ser decapitado em praça pública, queimado em uma fogueira, castrado por cães raivosos, que seja.

Não conheço a subjetividade do maníaco do ônibus, mas certamente é um tolo que vive sozinho e sustenta uma paixão platônica pela Paula Fernandes. Se fosse mulher, seria pelo Luan Santana (ou o damn Michel Teló, que hoje está no auge. OH, IF I KILL CATCH YOU!). As poucas pessoas que se atreveram a ouvir suas conversas fiadas dizem que ele vem com aquele papo de vender terrenos no céu.

Desculpe, maníaco, mas com esse histórico tu vais direto para o quentinho do inferno. Sequer vais fazer escala no purgatório.

O maior gosto que tive um dia desses foi ver o maníaco do ônibus escolher um banco vazio para sentar sozinho. Exatamente: ele e ele. Até estranhei e comentei com uma passageira, que mencionou algo super relevante: “Acho que hoje ele deixou por conta do destino, para ver se alguma moça se anima a sentar ao lado dele”.

Particularmente, achei uma tese brilhante. Será que o maníaco quis um empurrãozinho da velha sina, mesmo? Para sua desgraça, porém, um rapaz sentou no mesmo banco que ele durante os 36 quilômetros de viagem.

Da próxima vez, tenho certeza que o maníaco do ônibus voltará a optar pela sua infalível intuição - e tato - para escolher sua vítima. Digo, a jovem companheira de viagem. 

Humorbabaca.com/Louco do trem


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