Há 14 anos, parte das minhas férias de verão tem destino certo: o litoral gaúcho. Não é lá uma grande viagem se formos levar em conta a distância entre a minha casa e o mar, e as atrações que a cidade escolhida para o veraneio oferece. De Candelária a Capão da Canoa (mapa no fim da postagem) – onde passei a última semana, juntamente com meu namorado e meus pais – precisamos percorrer em torno de 310 a 320 quilômetros. Voltamos para a terrinha ontem.
De qualquer maneira, respirar outros ares sempre ajuda a colocar os pensamentos em dia, além de impulsionar novas ideias. Portanto, apesar de já ter ido a Capão da Canoa em diversos veraneios, sempre existem novas histórias para contar a partir de cada estadia. Está oficialmente aberta a temporada dos causos de verão. Sem encompridar ainda mais o nariz-de-cera (termo utilizado no jornalismo) dessa introdução, começo.
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| Nas dunas cheias de capim, observando o infinito mar |
Para esclarecer: os fatos a seguir relatados não seguem uma ordem cronológica, mas a sequência das minhas lembranças.
Com a liberdade autorizada por mim, inicio o emaranhado de histórias com um acontecimento registrado ontem mesmo. Estávamos eu e o Conrado (meu namorado.
- Tu viste o que ele estava lendo?
- Não. O que era?
- Um jornal chinês.
- Ahhhh.
- Eu queria ver isso de perto.
Falei sem compromisso. Até porque fiquei meio sem jeito de chegar e pedir um jornal. Então a minha vontade foi encorajada:
- Vamos lá. Pede um jornal pra ele.
Não pensei mais. Voltamos alguns metros e eu puxei o diálogo.
- Oi. O senhor é da onde?
- China.
- Fala português?
- Mais ou menos.
- E inglês?
- Não.
- Mora aqui ou lá?
- Aqui.
- Eu sou jornalista. Fiquei interessada no teu jornal. Essa folha aí é uma edição? É jornal diário?
- Sim.
- Posso levar um exemplar?
- Pode.
Não estou certa de que o chinês entendeu tudo o que eu falei. De qualquer maneira, levei o jornal. Não entendi bulhufas do que estava escrito, exceto os números arábicos verificados na parte superior da publicação. Tudo indica que se trata de uma edição de dezembro do ano passado.
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| Jornal chinês e vista da sacada do apê |
Também aproveitei os poucos dias na praia para ler com a cadeira na areia, pertinho do mar. Li As esganadas, do Jô Soares, e devorei metade do livro-reportagem Rota 66, do Caco Barcellos. Pretendo manter o ritmo nesta minha última semana de férias.
Aprendi a barganhar. (Logo eu, que sempre considerei a execução do verbo pechinchar um tanto vergonhosa). Meus pais e meu namorado me convenceram de que os vendedores de praia sempre põem o preço das mercadorias lá em cima porque sabem que vamos choramingar. Fato.
Só na beira da praia meu pai conseguiu economizar R$ 8,00 em uns óculos de sol*. Já minha mãe não teve a mesma sorte/trova: poupou apenas R$ 5,00 com a aquisição do mesmo produto. Já eu, na minha primeira barganha, contei com a ajuda do meu namorado e economizei R$ 3,00. Ao comprar uma sapatilha, mais um descontinho de R$ 3,00.
Fora os produtos de interesse pessoal, eu não podia deixar de comprar uma lembrancinha para o Rodka, meu querido rottweiler de estimação. Apesar de ser grandalhão e tudo, ele adora brinquedos, especialmente os que emitem algum tipo de som. Meu sonho de consumo direcionado ao cão era uma galinha depenada, feita de plástico. Fiquei apavorada com o preço: R$ 35,00.
Sem mentira: durante três dias seguidos fiquei trovando (no bom sentido) o responsável pela loja na tentativa de que ele baixasse o preço. E nada. Meu pai tentou, meu namorado tentou e eu tentei diversas vezes. E não, o comerciante não diminuiu o valor daquele treco de borracha. Fiquei chateada, mas não dei o braço a torcer e não levei o maldito frango de plástico. Antes de irmos embora, meu namorado ainda completou, meio rindo, meio sério, meio em tom de “eu te desejo isto”:
- Bah, cara, escuta o que eu estou te dizendo: tu não vais vender a galinha por R$ 35,00.
Em contrapartida, levei um ursinho de plástico, que faz barulho. Nesse, consegui somente R$ 2,00 de desconto. O Rodka adorou o bichinho. E ainda ganhou um colar “de mano”, essas bijuterias metidas à prata. Ontem, quando voltamos pra casa, ele não largava o novo aparato.
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| Rodka fofão com o ursinho |
Uma dica: se vais pagar em dinheiro, é mais fácil de pechinchar. Tu podes alegar que o comerciante tem uma taxinha a quitar pelo uso do cartão no ato do pagamento.
Ainda sobre as coisas que fiz na semana de praia:
Comi McMelt e top Sundae, do McDonald’s. Aliás, esse é um hábito super comum entre as pessoas que moram no interior do Estado. É só ir à capital, à região Metropolitana de Porto Alegre ou mesmo à praia que a primeira coisa que vem à mente é “vou ir ao McDonald’s”. Compreendam, personas: nós não temos essas regalias gordurosas por aqui.
Ainda durante minha estadia em Capão, percebi que não tenho senso de direção. Demorei pra me adaptar para qual lado eu deveria caminhar do apartamento até o mar e para qual região da cidade ficava o Centro. Damn it! Sou ruim mesmo. E não adianta me entregar um mapa, pois nunca acerto os pontos cardeais.
Mudando completamente o rumo da conversa, vi duas mulheres sendo resgatadas pelos salva-vidas de Capão da Canoa numa guarita próxima a que eu estava. Devia ser a 75. Vi um mar chocolatão com buracos na parte mais rasa. Vi meu namorado cultivando o vício pelo esporte em uma área destinada à prática do futebol de areia, à beira-mar. Eu surfei. Deitada, mas surfei. Vi uma Marília amenizando o sedentarismo com várias caminhadas diárias. Vi. Vivi.
Dia desses li na Super uma matéria sobre a felicidade. Yeap, a gente vive por ela. Na realidade vivenciamentos momentos felizes e não uma felicidade plena all the time. É ao sustentá-los [os momentos] na forma de boas lembranças que cultivamos nossa felicidade. Sinto que viajar para a praia, por mais trivial que seja, ainda tem graça. E rende boas histórias. Só ficou pendente uma coisa: o meu bronzeado. Não consegui emparelhá-lo.
* conforme o dicionário Houaiss, por ser substantivo masculino no plural, a forma “um óculos” está errada. Por isso, deve-se utilizar “uns óculos” ou “um par de óculos”.
Nota de rodapé:
Leste todo o texto? Parabéns e obrigada. Não dividi em mais postagens pelo medo de nunca publicá-las por uma desculpa qualquer.
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| Origem: Candelária / Destino: Capão da Canoa |




3 contribuições sarcasticamente irônicas:
Adorei! muito bom! realmente a felicidade está na lembrança e no cultivo de bons momentos.
Preparem-se: vem aí "Ai se te pego", versão em chinês, com a Marília Gehrke...rsrsrsss
Alguém estava com saudade de escrever... jogando letrinhas na tela do computador depois de salgar o corpo.
Otto
Muito bacana. Férias na praia sempre rendem boas histórias. P.S.: Raio de galinha cara, hein? hahahahaha
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