domingo, 19 de fevereiro de 2012

O jornal chinês e outras histórias

Há 14 anos, parte das minhas férias de verão tem destino certo: o litoral gaúcho. Não é lá uma grande viagem se formos levar em conta a distância entre a minha casa e o mar, e as atrações que a cidade escolhida para o veraneio oferece. De Candelária a Capão da Canoa (mapa no fim da postagem) – onde passei a última semana, juntamente com meu namorado e meus pais – precisamos percorrer em torno de 310 a 320 quilômetros. Voltamos para a terrinha ontem.

De qualquer maneira, respirar outros ares sempre ajuda a colocar os pensamentos em dia, além de impulsionar novas ideias. Portanto, apesar de já ter ido a Capão da Canoa em diversos veraneios, sempre existem novas histórias para contar a partir de cada estadia. Está oficialmente aberta a temporada dos causos de verão. Sem encompridar ainda mais o nariz-de-cera (termo utilizado no jornalismo) dessa introdução, começo.
 
Nas dunas cheias de capim, observando o infinito mar
 
Para esclarecer: os fatos a seguir relatados não seguem uma ordem cronológica, mas a sequência das minhas lembranças.

Com a liberdade autorizada por mim, inicio o emaranhado de histórias com um acontecimento registrado ontem mesmo. Estávamos eu e o Conrado (meu namorado. Até rimou) passeando pelo Centro de Capão, o paraíso dos vendedores asiáticos. Então encontramos um representante de meia-idade (quase idoso) daquele continente. É claro que meu olho clínico de repórter logo tratou de observar o que ele estava lendo: o exemplar de um jornal chinês. Achei curioso, mas continuamos andando. Daí eu disse pro Conrado:

- Tu viste o que ele estava lendo?
- Não. O que era?
- Um jornal chinês.
- Ahhhh.
- Eu queria ver isso de perto.

Falei sem compromisso. Até porque fiquei meio sem jeito de chegar e pedir um jornal. Então a minha vontade foi encorajada:

- Vamos lá. Pede um jornal pra ele.

Não pensei mais. Voltamos alguns metros e eu puxei o diálogo.

- Oi. O senhor é da onde?
- China.
- Fala português?
- Mais ou menos.
- E inglês?
- Não.
- Mora aqui ou lá?
- Aqui.
- Eu sou jornalista. Fiquei interessada no teu jornal. Essa folha aí é uma edição? É jornal diário?
- Sim.
- Posso levar um exemplar?
- Pode.

Não estou certa de que o chinês entendeu tudo o que eu falei. De qualquer maneira, levei o jornal. Não entendi bulhufas do que estava escrito, exceto os números arábicos verificados na parte superior da publicação. Tudo indica que se trata de uma edição de dezembro do ano passado.

Jornal chinês e vista da sacada do apê
 
Também aproveitei os poucos dias na praia para ler com a cadeira na areia, pertinho do mar. Li As esganadas, do Jô Soares, e devorei metade do livro-reportagem Rota 66, do Caco Barcellos. Pretendo manter o ritmo nesta minha última semana de férias.

Aprendi a barganhar. (Logo eu, que sempre considerei a execução do verbo pechinchar um tanto vergonhosa). Meus pais e meu namorado me convenceram de que os vendedores de praia sempre põem o preço das mercadorias lá em cima porque sabem que vamos choramingar. Fato.

Só na beira da praia meu pai conseguiu economizar R$ 8,00 em uns óculos de sol*. Já minha mãe não teve a mesma sorte/trova: poupou apenas R$ 5,00 com a aquisição do mesmo produto. Já eu, na minha primeira barganha, contei com a ajuda do meu namorado e economizei R$ 3,00. Ao comprar uma sapatilha, mais um descontinho de R$ 3,00.

Fora os produtos de interesse pessoal, eu não podia deixar de comprar uma lembrancinha para o Rodka, meu querido rottweiler de estimação. Apesar de ser grandalhão e tudo, ele adora brinquedos, especialmente os que emitem algum tipo de som. Meu sonho de consumo direcionado ao cão era uma galinha depenada, feita de plástico. Fiquei apavorada com o preço: R$ 35,00.

Sem mentira:
durante três dias seguidos fiquei trovando (no bom sentido) o responsável pela loja na tentativa de que ele baixasse o preço. E nada. Meu pai tentou, meu namorado tentou e eu tentei diversas vezes. E não, o comerciante não diminuiu o valor daquele treco de borracha. Fiquei chateada, mas não dei o braço a torcer e não levei o maldito frango de plástico. Antes de irmos embora, meu namorado ainda completou, meio rindo, meio sério, meio em tom de “eu te desejo isto”:

- Bah, cara, escuta o que eu estou te dizendo: tu não vais vender a galinha por R$ 35,00.

Em contrapartida, levei um ursinho de plástico, que faz barulho. Nesse, consegui somente R$ 2,00 de desconto. O Rodka adorou o bichinho. E ainda ganhou um colar “de mano”, essas bijuterias metidas à prata. Ontem, quando voltamos pra casa, ele não largava o novo aparato. 
 
Rodka fofão com o ursinho
 
Uma dica: se vais pagar em dinheiro, é mais fácil de pechinchar. Tu podes alegar que o comerciante tem uma taxinha a quitar pelo uso do cartão no ato do pagamento.

Ainda sobre as coisas que fiz na semana de praia:

Comi McMelt e top Sundae, do McDonald’s. Aliás, esse é um hábito super comum entre as pessoas que moram no interior do Estado. É só ir à capital, à região Metropolitana de Porto Alegre ou mesmo à praia que a primeira coisa que vem à mente é “vou ir ao McDonald’s”. Compreendam, personas: nós não temos essas regalias gordurosas por aqui.

Ainda durante minha estadia em Capão, percebi que não tenho senso de direção. Demorei pra me adaptar para qual lado eu deveria caminhar do apartamento até o mar e para qual região da cidade ficava o Centro. Damn it! Sou ruim mesmo. E não adianta me entregar um mapa, pois nunca acerto os pontos cardeais.

Mudando completamente o rumo da conversa, vi duas mulheres sendo resgatadas pelos salva-vidas de Capão da Canoa numa guarita próxima a que eu estava. Devia ser a 75. Vi um mar chocolatão com buracos na parte mais rasa. Vi meu namorado cultivando o vício pelo esporte em uma área destinada à prática do futebol de areia, à beira-mar. Eu surfei. Deitada, mas surfei. Vi uma Marília amenizando o sedentarismo com várias caminhadas diárias. Vi. Vivi.

Dia desses li na Super uma matéria sobre a felicidade. Yeap, a gente vive por ela. Na realidade vivenciamentos momentos felizes e não uma felicidade plena all the time. É ao sustentá-los [os momentos] na forma de boas lembranças que cultivamos nossa felicidade. Sinto que viajar para a praia, por mais trivial que seja, ainda tem graça. E rende boas histórias. Só ficou pendente uma coisa: o meu bronzeado. Não consegui emparelhá-lo.
 
* conforme o dicionário Houaiss, por ser substantivo masculino no plural, a forma “um óculos” está errada. Por isso, deve-se utilizar “uns óculos” ou “um par de óculos”.

Nota de rodapé:
Leste todo o texto? Parabéns e obrigada. Não dividi em mais postagens pelo medo de nunca publicá-las por uma desculpa qualquer.

Origem: Candelária / Destino: Capão da Canoa

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O maníaco do ônibus

- Ih, lá vem ele de novo. Finge que tá dormindo. Rápido.

O aviso da amiga veio do banco da frente. Antes que a destinatária da mensagem pudesse retrucar com um “Ahn?” de desentendida, o maníaco do ônibus se acomodou ao seu lado, com um sonoro “com licença”.

O maníaco, assim como um serial killer, seguia um perfil na hora de escolher suas vítimas. Ok, ele não era assim tão criterioso: bastava que fossem jovens mulheres. A cor dos olhos ou do cabelo tanto fazia. Se fossem comprometidas ou desimpedidas, importava menos ainda. Ele apenas queria belas companhias durante o trajeto de 36 quilômetros que percorria todas as sextas-feiras.

As insane as Mr. Bean
As mais precavidas, ao saber do maníaco do ônibus, já se apressavam a escolhiam um assento com outra companhia que não a daquele lunático. Pena que a amiga não teve tempo de entender o recado de outrem. Na verdade, sua miopia não permitiu que reconhecesse o maníaco do ônibus de imediato: ele havia feito a barba.

A experiência de viajar ao lado do maníaco do ônibus, conforme suas vítimas, é a mais desagradável possível. “Ele ficou o caminho todo com o braço entre os bancos, roçando na minha perna”, disse uma das moças. A outra, indignada, relatou que o maníaco usou a tática que ela costuma usar – fingir estar dormindo – só para que ela o acordasse, pois estava no assento da janela e precisava descer do ônibus.

O ódio mortal que as jovens sentiam pelo maníaco do ônibus se traduzia, em primeiro lugar, por sua aparência desleixada e seu aspecto asqueroso. Se fosse um jovem bonitão, garanto que ninguém se importaria e até faria questão de compartilhar o banco do ônibus (de dois lugares) sem fazer cara feia.

O fato é que o maníaco do ônibus também não é benquisto porque se tornou uma figura indesejada a partir de suas ações. É visto como a tradicional “mala sem alça e sem rodinha”. E quando ele cisma com uma vítima, não há raios que o façam desistir.

Certa feita, acordou uma moça que estava dormindo (de fato) – e ocupando o banco do corredor – só para pegar o assento da janela, ao lado da rapariga. “Senhor, tem outros lugares disponíveis”, disse uma passageira mais velha, tentando ajudar. “Calma, ela já vai acordar”, disse, bravo, praticamente sacudindo a vítima, que despertou com um “Ahn? O que foi?” seguida do susto de ter como companhia de viagem o maníaco do ônibus.

Ninguém sabe, ao certo, por que diabos o maníaco do ônibus se tornou, de fato, o maníaco do ônibus. Dizem as más línguas que, se ninguém der um basta no homem, farão um abaixo-assinado para que ele seja indicado a persona non grata de seu município por atormentar suas conterrâneas durante a viagem de ônibus. Cogita-se até sua expulsão da cidade, tamanho o ódio a ele direcionado.

Situação deveras preocupante, eu sei. Se estivéssemos em outro regime, certamente o maníaco já teria sido condenado a uma penalidade do tipo ser decapitado em praça pública, queimado em uma fogueira, castrado por cães raivosos, que seja.

Não conheço a subjetividade do maníaco do ônibus, mas certamente é um tolo que vive sozinho e sustenta uma paixão platônica pela Paula Fernandes. Se fosse mulher, seria pelo Luan Santana (ou o damn Michel Teló, que hoje está no auge. OH, IF I KILL CATCH YOU!). As poucas pessoas que se atreveram a ouvir suas conversas fiadas dizem que ele vem com aquele papo de vender terrenos no céu.

Desculpe, maníaco, mas com esse histórico tu vais direto para o quentinho do inferno. Sequer vais fazer escala no purgatório.

O maior gosto que tive um dia desses foi ver o maníaco do ônibus escolher um banco vazio para sentar sozinho. Exatamente: ele e ele. Até estranhei e comentei com uma passageira, que mencionou algo super relevante: “Acho que hoje ele deixou por conta do destino, para ver se alguma moça se anima a sentar ao lado dele”.

Particularmente, achei uma tese brilhante. Será que o maníaco quis um empurrãozinho da velha sina, mesmo? Para sua desgraça, porém, um rapaz sentou no mesmo banco que ele durante os 36 quilômetros de viagem.

Da próxima vez, tenho certeza que o maníaco do ônibus voltará a optar pela sua infalível intuição - e tato - para escolher sua vítima. Digo, a jovem companheira de viagem. 

Humorbabaca.com/Louco do trem


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre bolos e aleatoriedades


Hey, everybody!

Na busca por uma fotografia adequada para ilustrar este post, encontro a imagem de um bolo com cobertura amarela. A foto foi tirada em 25 de julho. Portanto, minha ideia de criar um texto a partir da imagem é antiga. Apesar de ter deixado a foto de lado em um primeiro momento, abro essa postagem com o motivo pelo qual o bolo de cobertura amarela ilustraria outro texto.

Em uma bela tarde, decidi ir à padaria conferir o que havia de bom para aumentar os níveis de serotonina no corpo. Foi então que fitei esse bolo. Na fila para ser atendida, ouço uma outra criatura pedir uma parte do mesmo bolo. Ela disparou:

- Eu quero um pedaço desse bolo de recheio amarelo.

Pensei: isso aí não é recheio. É cobertura.

Fiquei na minha, né. Só teria me pronunciado se a fulana tivesse levado o bolo inteiro. Aí colocaríamos os pingos nos "is" e debateríamos sobre recheios e coberturas. Em todo caso, recorri ao meu querido Houaiss - também conhecido como dicionário - para distinguir os dois termos. 
Cobertura: tudo o que cobre ou serve para cobrir; revestimento;
Recheio: tipo de alimento ou preparação culinária com que se enche o interior de outro alimento, antes ou depois de ir ao forno ou fogo (e nos exemplos tinha RECHEIO DE BOLO); tudo que ocupa ou enche um vão.

De fato, a coisa amarela não ocupava um vão, pois servia de revestimento para o bolo. Touché.

No mais, quero registrar alguns monólogos, diálogos e algumas frases aleatórias registradas durante a semana que passou:
Projeto de editora-chefe
- O prazo de entrega era segunda-feira. Se fôssemos uma redação de verdade, a maioria de vocês estaria demitido.
(Marília Gehrke, editora-chefe do telejornal Ensaio, sobre o atraso na entrega das matérias);

Cristã desconfiada

Atendente: A senhora vai querer passagem com seguro?
Senhora: A segurança é Deus, mas bota aí um seguro.
(Diálogo entre atendente e cliente ao comprar passagem na rodoviária);


Passageiro indignado
- Esse motorista parece que ta levando gado no ônibus. Acelera e freia bruscamente. Deveria transportar gado!
(Homem indignado com o gingado do motorista de um ônibus urbano).

Na cobertura do vestibular:
- Oi! Eu sou a Marília, da Gazeta. Podemos conversar um pouquinho?
- Agora?
Silêncio. Pensei se soltava um “NÃO, AMANHà DE MANHÔ, mas soaria muito impolite. É claro que era naquele momento. Quando mais seria?
- Sim (respondi, com o sorriso simpático de sempre).
- Então, não.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Reinações e Considerações - Parte I

A cadeira em que o assessor imaginário se escorou
Os tópicos a seguir contemplam situações que vivi nos últimos dias.

Aparando as unhas
Esta é uma historinha proveniente das tradicionais andanças de ônibus. 
Dia desses eu estava feliz, bem-humorada e agradecendo aos céus por ter um ônibus fofinho para voltar para casa. Escolhi um banco vazio à direita do corredor. Até aí tudo bem. Daí um casal resolveu ocupar o banco da frente. Até aí tudo bem também. Subitamente, ouço um barulhinho desagradável: tec, tec, tec. Achei que jamais presenciaria tal cena no ônibus, mas tive de aguentar firme: a guria resolveu podar as unhas em pleno coletivo. Era lasca voando pra tudo quanto é lado. E o tec, tec, tec. Gente, cadê os modos? Quanta falta de capricho! Se ainda fosse uma reles cidadã mal-instruída eu daria um desconto. Só que se tratava de uma universitária.

Marília-ninguém

Meu namorado recebeu o convite de um casamento. O destinatário é: “Conrado e namorada”. Leia-se: Conrado e acessório. Entrei em crise existencial desde então. NOT. Como assim, não sabem quem eu sou?
Obs.: Eu ia aproveitar o ensejo para fazer um comentário maldoso, mas vou poupá-los. Só porque sou uma pessoa de alma caridosa.

Sobre ver o desconhecido

Dia desses sonhei com um assessor de imprensa que nem conheço. Só sei que eu estava pedindo uma informação sobre uma pauta real. Ele respondeu:
- Pode ser que eu demore para te responder. Sou eu que cuido de tudo por aqui (disse, sentado em uma cadeira e projetando-se para trás).

Sobre rever amigas
Situação A:
- Oi, Marília.
- Oi. Tudo bem? (O tudo bem saiu automático, incluo isso nos meus ois automaticamente).
E surge uma antiga colega/amiga apenas quatro meses mais velha do que eu. Ela está casada e tem um bebê. Não invejo essa vida. Guardo uma mágoa antiga da criatura. Não lembro direito por que deixei de falar com ela, mas também não tenho motivos para reatar uma amizade destruída pelo tempo.

Situação B:
Cheguei na rodoviária e, como de costume, fui trocar meu vale por uma passagem. No trajeto entre o guichê e o poste onde sempre me escoro, avistei uma guria que julguei ser uma ex-colega e amiga muito próxima. Só que ela estava diferente. Eu não a via há três anos! Como eu podia saber se era ela? Não costumo reconhecer as pessoas fora do contexto. Ao invés de ir perguntar se era ela mesmo, dei meia volta e virei as costas. Nisso, o ônibus chegou. Essa foi a minha desculpa: o embarque. Me arrependi de não ter conversado. We used to be very close. 

Natal

- Ih, já tem pinheirinho. Tá na hora de ir ao culto de novo.
A frase é do meu tio, mas serve para todos aqueles que, assim como nós, vão à igreja uma vez por ano, muitas vezes obrigados pela família. Não que eu me orgulhe disso, mas sinto que estou vivendo um dèjá vu todos os 24/12. A mesma palavra, as mesmas canções, enfim. Acho que se tu preservas uma crença não precisas necessariamente provar para a sociedade e tentar dar uma de boa moça/bom moço só porque o período exige solidariedade, empatia e sentimentos similares a esses.

A autora adverte: existe a presença de altos níveis de ironia nesse texto. Portanto, não leve tudo ao pé da letra.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Programa de Rádio - cemitérios e mortes

Programa de 5 minutos elaborado para a disciplina de Produção e Direção para Programas em Rádio.

Enjoy it! 


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Repórter na Prainha

Uma das minhas primeiras andanças como repórter de jornal impresso ocorreu em fevereiro deste ano, com a cobertura do concurso de beleza Musa do Sol, realizado anualmente no Balneário Carlos Larger (popular Prainha), em Candelária. Eu e a minha colega Cláudia ficamos encarregadas de fazer uma espécie de enquete com o público (sobre impressões, palpites, enfim). Ao observar o público, avistei uma figura conhecida: o zagueiro Bolívar, do Internacional. Capitão do time, inclusive.
O zagueiro colorado e o tradicional polegar virado pra cima

Confesso que tenho certa dificuldade para reconhecer as pessoas fora do contexto em que usualmente estão inseridas. Além disso, sou míope, o que não conta pontos em meu favor. Em todo caso, não havia como não reconhecer o Bolívar (embora ele não estivesse em um campo de futebol). Afinal, estávamos em um concurso de beleza. E jogador de futebol adora esse tipo de ambiente, né?! Of course they love it. No mais, consegui identificá-lo pelo estilo (ou falta de). Brincadeirinha.

No fim das contas, o meu “achado” resultou nesses retratos. O Bolívar estava acompanhado por três sujeitos: o pai, o amigo e o cunhado. Na ocasião, o zagueiro se recuperava de uma lesão e aproveitou para conferir o concurso e prestigiar a famosa Prainha. Olha, não posso negar que fiquei satisfeita naquela tarde de domingo. Tratava-se de uma das primeiras coberturas da minha carreira.
Bolívar entre o amigo, o pai e o cunhado

Outra coisa: o Bolívar foi o primeiro jogador do Inter que me concedeu um autógrafo. Isso ocorreu quando a equipe colorada veio até Santa Cruz do Sul em uma partida válida pelo Gauchão. Creio que foi em 2005. Ainda tenho guardado o tal autógrafo, que foi assinado em um pedaço de papel cor-de-rosa. Como estou com preguiça de procurar, fico devendo para vocês. 

Crédito das fotos: Marília Gehrke, é claro.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O dia em que minha tática (in)falível falhou

A vida de quem anda diariamente de ônibus consiste em mais ou menos no seguinte: compartilhar o mesmo ar com outras 49 pessoas, aturar manias, suportar odores de procedência duvidosa e joelhadas durante o caminho inteiro, encarar a falta de privacidade... Esse último fator me faz desejar, todos os dias, um banco para ocupar sozinha. Essa terça-feira teve cara de segunda: ônibus praticamente lotado. Embarquei e procurei um assento mais afastado, supostamente livre de possíveis intrusos. Calmamente peguei meu mp3, desenrosquei os fones de ouvido e apertei play no meu rock matinal. 
 
Tudo parecia estar nos conformes quando, antes de sair da cidade, o coletivo parou. Havia uma mulher querendo embarcar. Pensei: “putz!”. Coloquei minha bolsa e um casaco no banco ao lado e fechei os olhos para fingir que estava dormindo. Esperei alguns segundos e, antes de abrir os olhos, senti alguém colocar a bolsa no meu colo. “Merda!”, avaliei. Se não me falha a memória, havia outros poucos bancos disponíveis. Insatisfeita com a insolência, virei pro lado e puxei meu casaco, sobre o qual a criatura já estava praticamente sentada. Invoquei demônios, tamanha era a minha irritabilidade. Fiquei o caminho inteiro com a cabeça virada para a janela, o que resultou em um breve torcicolo. 
 
 
 
 
Quando o ônibus parou em Vera Cruz, município que antecede meu destino de todos os dias, um sorriso contido começou a brotar em minha rica face de trakinas. No entanto, o desespero voltou a tomar conta de mim antes que minhas covinhas ousassem aparecer. Avistei, no corredor, um vovô e sua netinha. “Era só o que faltava para completar minha jornada”, esbravejei em silêncio. Não deu outra: ambos foram se acomodar justamente do meu lado. O vovô sentado e a guria na frente dele, tagarelando. Estávamos entre TRÊS num banco. 
 
Quem me conhece sabe que não morro de amores por crianças (Dia desses um piá passou o caminho inteiro cantarolando e se pendurando no meu banco). Na verdade, me falta paciência. Dei-me conta, por fim, que minha técnica – supostamente infalível – é falha. De qualquer sorte, querer um assento individual é pedir demais? Quem aí concorda? Preciso descobrir novos métodos para repelir pessoas.